Filosofia e literatura Compartilho minha jornada de estudos, opiniões e o que mais fizer sentido

Joined October 2011
Uma mulher de pouca fé Vamos falar um pouco de literatura. Estou relendo Irmãos Karamázov e vou comentar alguns trechos que julgo valer a pena. No capítulo 4 do livro 2 chamado “Uma senhora de pouca fé”, a Sra. Khokhlakova busca o Starietz Zossima (autoridade religiosa do mosteiro), procurando orientação espiritual e alegando não ter fé. Quando interpelada se sua ausência de fé diz respeito à fé em Deus, ela diz que não, que sua dificuldade está na fé na vida após a morte. A Sra. Khokhlakova diz que ama a humanidade, mas que tem muita dificuldade em amar o indivíduo. Seu amor pela humanidade (tema bastante recorrente no corpus dostoiévskiano) seria infindável. Ela estaria disposta a fazer os maiores sacrifícios, inclusive dar sua vida por esta. Mas o que ela não suporta é a indiferença; a ingratidão daquela pessoa que é alvo de seu sacrifício. Ela ama a humanidade profundamente, mas a ingratidão de um indivíduo seria insuportável, e a disposição ao sacrifício desapareceria. Khokhlakova cai em prantos ao perceber que seu amor não é um amor plenamente altruísta e que ela espera em troca a gratidão, mas esse não é o ponto principal desse capítulo. Dostoiévski, através de Khokhlakova, apresenta a questão de que o amor a uma ideia abstrata é mais fácil que o amor ao particular. Estar próximo ao particular é estar na realidade, sofrendo todas as consequências das contradições dessa mesma realidade e das injustiças do mundo. Mais do que isso, aponta que um único ato de grandioso sacrifício, embora nobre, é mais fácil/cômodo do que o sacrifício diário, o sacrifício pequeno e repetitivo, e essa é a beleza daqueles que dedicam a vida a fazer o bem. Eles não sacrificam a vida em um único ato; eles a dedicam ao próximo infinitas vezes em uma única vida, estando vulneráveis a qualquer mazela humana. Isso demanda uma abertura ao ser humano, uma exposição da alma, esta necessitando ser enorme, nobre, altruísta e com grandiosa disposição à ação, mesmo em face da cruel nudeza do mundo. Eu costumo levar isso para tudo na vida. Um único ato de sacrifício é “fácil”; difícil é o pequeno sacrifício diário. Difícil é manter a alma sem se despedaçar ao encarar as frustrações do mundo.
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Metafísica de Aristóteles (Ainda refutando àqueles que negam o princípio de não contradição ) - Interessante que, em termos modernos, Aristóteles se enquadraria como um empirista. Mas sua crítica às doutrinas protagorianas (e todas aquelas que não aceitam o princípio de não contradição) se apoia justamente em estabelecer limites à autoridade dos sentidos. Seu argumento é o seguinte: se o que aparece (o fenômeno, o que *aparece* aos sentidos) é sempre verdadeiro, então todas opinões são sempre verdadeiras desde que captadas pelo sentidos. Logo, tudo é verdadeiro, independente do que se afirme. Para resolver o problema do subjetivismo, ele dirá que o que aparece não existe em geral. Mas existe àquele para quem aparece, só modo que aparece e enquanto aparece. Dessa forma a autoridade dos sentidos é limitada. Em última instância, não reconhecer o limite dos sentidos é operar no extremo do subjetivismo: se uma coisa é percebida, ela existe e é real, não por si, mas pelo observador. Logo, as coisas foram destituídas de sua essência e passam a existir pelo observador. Se nada existe por si, não existe essência, ou seja, não existe delimitação nem significado. Então o que a Aristóteles faz é reconhecer a importância dos sentidos para o formação do conhecimento humano restringir sua autoridade e reconhece a existência da essência das coisas. Do contrário, a consequência final seria até mesmo a impossibilidade do discurso, como Crátilo, discípulo de Heráclito que, segundo Aristóteles, deixou até mesmo de falar e só movia o dedo. (O exemplo de Crátilo que dei foi mencionado por Aristóteles na refutação da doutrina Heraclitiana que “tudo está em movimento” que é distinta da Protagoriana “o que aparece aos sentidos é real”. Mas utilizei ainda assim porque ambas teorias recusam a essência, que é o ponto fundamental de Aristóteles para refutação daqueles que negam o princípio de não contradição )
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Algumas técnicas de leitura que utilizo pra livros de filosofia: A primeira coisa que normalmente busco fazer é identificar a estrutura do texto e isso quer dizer: 1. Identificar os argumentos e os separar em premissas e conclusões (pressupostos também muitas vezes); 2. Identificar os movimentos de cada argumento. Identificar um movimento é perceber se o autor está encadeando argumentos como uma corrente ou se está apresentando diversos argumentos que não são uma cadeia (nesse caso convém enumerá-los) OU perceber em que momento ele muda a direção da argumentação e passa de uma afirmativa pra uma negativa; Na primeira foto (print do meu caderno) o argumento S. Tomás está decomposto em premissas e conclusões e na foto 3 todo o trabalho está feito dentro do texto em si. Pra isso é importante prestar a atenção nas conjunções, elas indicam reversão de movimento ou continuidade, ou seja, vão negar ou corroborar o que foi dito até aqui (anotações na foto 2). Tudo isso é tido como análise de um texto filosófico e isso é técnica de leitura para se estudar um texto denso. Vi isso em uma disciplina chamada "Leitura e interpretação de textos clássicos". Não faço TUDO isso pra qualquer leitura, somente para aquelas que tenho pretensões acadêmicas e que serão avaliadas (senão leria 2 livros por ano só kkkkkk) A partir daqui eu costumo grifar o argumento principal e as conexões entre ideias que os autores fazem (isso vocês podem ver nos trechos dos meus livros que eu posto). A mera preocupação de grifar o que é mais importante te faz ler com um olhar mais crítico buscando de fato o que é mais importante e isso já transforma sua leitura em leitura ativa, o que é o único modo de ser ler filosofia. A preocupação de notar as conexões entre ideias é para, ao reproduzir a argumentação do autor, você não ficar perdido de como ele faz a passagem de uma conclusão para outras conclusões. É importante conseguir reproduzir todo o movimento que o autor faz. Isso é valiosíssimo em especial pra diálogos Platônicos por exemplo. Eliminar os ruídos de comunicação e se ater à cadeia argumentativa e às objeções. Sobre os comentários/anotações, eu costumo, depois de articular o argumento sob as categorias do autor, transcrever a partir das minhas categorias trazendo outras referências evidenciando contrastes, problemas, soluções ou implicações. No mais, se for uma obra essencial pra sua formação, convém escrever (escrever, não digitar hehe) toda a cadeia argumentativa, tirando tudo que não for essencial e revisitar o seu escrito entre leituras para reforçar o que for essencial. Espero que ajude e conforme for lembrando de mais coisas, vou fazendo mais posts.
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Seguimos na aula de japonês também. Com menos tempo investido do que em filosofia…mas devagar e sempre
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A defesa do princípio de não contradição de Aristóteles se baseia na existência da essência. Aristóteles alega que aqueles que dizem que “homem” e “não-homem” são a mesma coisa, suprimem a substância (ousía) e a essência (einaí) das coisas. Suprimindo a essência, reduz-se tudo a acidentes (estes destituídos de substância), logo não há ente primeiro ao qual se predicar e o logos estaria interditado, não haveria como dizer nada sobre nada. Essência é delimitação da substância. Cascudinha essa página. Fiquei uns 40 min pra formular esse entendimento kkkk Metafísica, livro Gama - 1007a e 1007b
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Pra quem estuda filosofia, essa definição de <Metafísica> tem que estar na ponta da língua: Metafísica é a ciência (ou campo da filosofia) que estuda o ser enquanto ser, os princípios e as causas primeiras, não o que é acidental do ser, mas sua essência. E Aristóteles dirá que esse é o campo de estudo do filósofo.
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Livros que chegaram ontem. Meus interesses atualmente, além das necessidades acadêmicas, estão em língua, cultura e filosofia japonesa. Ainda não sei qual livro ler sobre Wabi-Sabi, mas este “Livro do chá” é um obrigatório, visto que foi escrito justamente para nós, ocidentais. Já na parte acadêmica, ontologia: mais especificamente o uno e a criação de tudo a partir do nada (aqui um pouco acadêmica tbm). Capaz que eu faça uma IC nesse tema…
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Algumas coisas que não couberam na biblioteca (por enquanto) Clássicos Atena, obra completa de Dante Alighieri
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Peguei pra ler uma segunda vez. Que história poderosa. Incrível pensar que isso aqui saiu da cabeça de um homem. Quando terminei de ler esse livro pela primeira vez achei que não conseguiria ler nada nunca mais. Pensei que nunca acharia nada tão belo…Foi o empurrão que eu precisava pra ler Confissões de Santo Agostinho. Foi uma boa escolha.
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🤯Olha, bastante informação. Foram 2 páginas de introdução da matéria filosófica da escolas de budismo que foram originada no período Nara no Japão (por enquanto o que me interessa é a filosofia no JP). Temas metafísicos e epistemológicos, em linhas gerais, os mesmos temas que a filosofia ocidental discutia, inclusive com doutrinas que esbarram na doutrinas ocidentais. Vi muita coisa Heraclitiana, Platônica, estoica e até uma filosofia da mente que só surgiria com a psicanálise muitos séculos depois aqui no ocidente. Claro que ainda não tenho a profundidade para traçar paralelos, mas que tem grandes semelhanças, tem. Na primeira foto um pouco das escolas Kusha e Jōjitsu e a descrição do bodisatva e da doutrina dos 3 corpos.
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E aí, existe filosofia oriental? Meu professor de *filosofia oriental* (😂) diz que sim e me recomendou esse livro pra iniciar. Disse que há muitas bolsas para os interessados e que existe um mundo que eu me mude para o Japão pra pós graduação e talvez carreira acadêmica mesmo.
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Chegou hoje. E aí, o que me dizem?
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Metafísica - Aristóteles Capítulo em que Aristóteles apresenta as insuficiências da teoria das Ideias (platônica) em explicar as causas e a realidade. E basicamente são duas: Ela não menciona movimento, ou seja, nao responde como as Formas são criam as coisas sensíveis (se é que é justo cobrar isso da teoria das Formas) A incapacidade de serem fonte de substância visto que são coisas distintas e que estariam em “planos” (em falta de melhor termo ). Aristóteles chega a dizer que postular que a relação se dá através da participação e não dizer nada. Lembrando que Aristóteles nos apresenta as 4 causas: 1. Substância/Essência ou forma 2. Matéria/Substrato 3. Origem do Movimento 4. Fim/bem Ou de forma mais comumente conhecidas: Causa formal, causa material, causa eficiente e causa final.
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Primeiro capítulo do livro Alpha de metafísica de Aristóteles O ser humano nasce inclinado ao conhecimento. Por isso somos tão afeitos aos sentidos. Os sentidos nos possibilitam a experiência e a experiência é a experiência dos singulares. Nos homens a experiência deriva da memória; de muitas recordações de um objeto formamos uma experiência única, ou seja, experiência aqui já é um certo tipo de intelecção. Arte são juízos tomados acerca da experiência. Fazer juízo de que determinadas experiências distintas possuem distinções e semelhanças e agrupa-las em gêneros (universalizar o individual) é a sapiência que compete à arte. Aristóteles afirma que sensações não são sapiência, são, por excelência, instrumentos de conhecimento dos particulares. Logo, o primeiro homem a descobrir* uma arte, ou seja, sair do campo da experiência e começar a conhecer aos universais, é superior aos outros homens e recebeu sua admiração. O sapiente é senão aquele que conhece as causas primeiras e os princípios. O homem prático (trabalhador manual) que vive no campo da experiência age por hábito, sem saber as causas. Os seres inanimados como o fogo que arde, agem por inclinações naturais. Forma-se aí então uma hierarquia onde o sábio (aquele que tem sapiência) é mais sábio que aquele que apenas tem experiência, este sendo mais sábio que aquele que, não tendo experiência, não age por hábito e sim por inclinações naturais. Entretanto em (981ª 15) Aristóteles alerta que teoria sem prática pode conduzir a erro. Ora, universalizar é conhecer o gênero através do indivíduo, mas um médico não trata o gênero (homem), trata o indivíduo , Cálidas. Então o médico deve conhecer o universal Homem, mas ele cura o indivíduo Cálidas, o Homem é só um acidente na ação de curar. — Tenho gostado do texto de Aristóteles, tenho achado fácil de ler (claro que já tenho certa familiaridade com outras obras de Aristóteles e Platão; e tive DIVERSAS aulas deles e dos gregos, então muitos conceitos já me são mais naturais).
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Estudando Kanás. Essa semana tenho 3 provas de japonês. Vai ser tudo que estudarei, conteúdo + alfabetos. Estudar do inglês é mais fácil do que do português.
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Página 1 do livro Alpha - Metafísica de Aristóteles. E começamos 🫡 Vou ler o Alpha e Gama (que são o mínimo p/ filosofia medieval) depois voltar ao livro de introdução. Depois volto ao metafísica pra uma leitura integral mais rápida (mas ainda cuidadosa) e em algum momento faço uma leitura mais aprofundada. Respira e mergulha.
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Finalizado. Descartes pode enganar. É um filósofo que parece fácil porque ele, no intuito de persuadir, se utiliza de uma linguagem comum. Mas seu objetivo é enorme. Eu cheguei a postar aqui um trecho da obra onde ele dizia querer “reformar” o pensamento filosófico e até o intitulei como “filósofo reformista”. Não poderia estar mais enganado. Descartes tem como objetivo pôr abaixo o edifício filosófico que, segundo ele, teria sido construído encima de uma base de areia. O que ele quer é refundar a filosofia que à época operava por bases (físicas, metafísicas e éticas) Aristotélicas por uma nova, demonstrada à maneira dos geômetras, a filosofia Cartesiana. Para isso ele introduz a dúvida metódica atacando os sentidos m, o que o conduz ao solipsismo. Penso, logo existo. Cogito ergo sum. A primeira coisa que consegue provar é a existência de si como “coisa pensante” (res cogitans) e para sair de si mesmo e provar o mundo externo (e o corpo) ele precisa provar Deus, e o faz duas vezes. É um livro curto, de leitura fluida mas que detém um pensamento lógico muito forte e também muito conteúdo em cada proposição e pressupõe também que você conhece a base aristotélica que mencionei acima. Um cânone da filosofia que deve compor nossa formação.
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