A Big Tech está a repetir os erros que a Big Oil cometeu há vinte anos ...
Há uma pergunta que faço sempre que analiso uma empresa: como é que os seus gestores são pagos? Antes de olhar para os resultados, abro o proxy. É aí que se percebe o que a administração tem verdadeiramente incentivos para fazer.
Ao estudar a indústria petrolífera e compará-la com a Big Tech, encontrei um paralelo que me parece difícil de ignorar. Durante anos, as petrolíferas foram recompensadas por produzir mais, acrescentar reservas e crescer. O capital foi investido em excesso, os retornos ficaram abaixo do custo de capital e os acionistas pagaram a fatura. A indústria acabou por mudar as métricas: menos crescimento a qualquer preço, mais free cash flow, ROCE e retorno do capital.
Agora, a corrida à IA está a exigir centenas de milhares de milhões em capex às maiores tecnológicas. Mas será que os incentivos dos gestores evoluíram à mesma velocidade que as necessidades de capital dos seus negócios?
Neste artigo, analiso os planos de remuneração da Big Tech, a mudança de estratégia na BP, a economia da refinação e os sinais que o mercado continua a ignorar no sector energético. A tese vai além de uma comparação entre indústrias: o que acontece quando os gestores são recompensados por crescer, mas não necessariamente por criar valor?
É também uma das razões pelas quais continuo a olhar para a energia de forma diferente do mercado - e porque vejo na OXY uma abordagem à alocação de capital que merece atenção.
O artigo termina com um dado que considero particularmente revelador: o setor energético representa uma pequena fração do S&P 500, mas uma parcela desproporcionada dos dividendos e buybacks do índice.
Novo artigo na Elite Financeira: os incentivos que moldam os ciclos de capital - e o que a história do petróleo nos pode ensinar sobre a Big Tech.
elitefinanceira.substack.com…
Em 2011, o S&P 500 inteiro (as 500 empresas) totalizava cerca de 10T dólares.
Hoje, só Nvidia + Apple contabilizam 10T.
O índice é ponderado por capitalização de mercado. Isso significa que o desempenho e o risco do “mercado” estão cada vez mais concentrados num número reduzido de gigantes tecnológicos.
Chamar ao S&P 500 de “diversificado” em 2026 é, no mínimo, questionável.
A história mostra que as líderes mudam. A concentração atual não tem precedente recente.
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What did Greg Abel tell Taylor Morrison CEO Sheryl Palmer after Berkshire Hathaway acquired the homebuilder?
"You get to do exactly what you've been doing — run a responsible, good business — but you get to do it with real patience and a long-term lens," she recalled Abel telling her. "Don't make any decisions for next quarter. Don't even make decisions for next year. Do what's right for the business as far out as you can see."
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A Berkshire está a comprar habitação americana quando quase ninguém quer tocar no setor. À primeira vista, parece uma bet contra o ciclo. Mas, depois de estudar a Lennar, acho que a tese pode ser bem mais interessante: um défice estrutural de casas, construtores que passaram a funcionar como fábricas e um modelo de negócio muito menos intensivo em capital do que antes de 2008.
O mercado continua a olhar para estas empresas como negócios imobiliários cíclicos, penalizados pelas taxas de juro e pelas margens deprimidas. Mas e se estiver a subestimar a transformação do sector? Analisei os números, o modelo de negócio, a posição da Berkshire e o que a Lennar poderá valer quando os lucros normalizarem. Também fiz as contas ao que pode correr mal.
Não é uma tese sem riscos... Mas a diferença entre comprar uma empresa barata e comprar um negócio estruturalmente melhor do que o mercado pensa está precisamente nos detalhes.
Novo artigo na Elite Financeira: a aposta da Berkshire na habitação americana e porque estou a olhar com atenção para a Lennar.
$BRK.B $LEN $DHI
elitefinanceira.substack.com…
Serviço público. Excelente iniciativa e uma forma muito útil de olhar para os fundamentos do mercado imobiliário português.
Há um enviesamento frequente no investimento: olhar para a valorização dos últimos dez anos e assumir que, por ter subido tanto (últimos 10 anos), o imobiliário continuará a valorizar da mesma forma. Mas o passado não é uma tese de investimento. O que importa é perceber o desequilíbrio que provocou essa valorização e avaliar se os factores que o sustentaram vão persistir.
Em Portugal, o desequilíbrio é claro: a construção caiu para mínimos históricos, enquanto a procura foi impulsionada por um crescimento demográfico e migratório excepcional, num contexto de famílias mais pequenas e forte concentração da procura nas principais cidades. A questão não é apenas saber se as casas continuam a ser necessárias, mas se a oferta vai continuar a crescer tão pouco e a procura tão depressa.
Os dados começam a mostrar sinais de mudança. Os licenciamentos estão a recuperar e o crescimento do saldo migratório está a abrandar. Se estas tendências se mantiverem, o imbalance entre oferta e procura poderá diminuir gradualmente. E, quando isso acontece, não é necessário que os preços caiam para que o mercado mude: basta que as taxas de valorização normalizem, podendo mesmo passar a ficar abaixo da inflação durante algum tempo.
É aqui que entra o capital cycle: a oferta reage com atraso, mas reage. E os retornos extraordinários de um período de escassez não são necessariamente replicáveis quando as condições que os produziram começam a desaparecer.
A pergunta relevante é, portanto, se a AD conseguirá inverter anos de restrições à construção e aos licenciamentos, ao mesmo tempo que modera o crescimento da procura migratória. A minha leitura é que há margem para uma redução do desequilíbrio e, consequentemente, para um mercado imobiliário bastante diferente do da última década.
Quem prevê que os preços vão continuar a subir porque subiram no passado está a extrapolar uma tendência. Uma tese sólida tem de explicar por que razão o desequilíbrio vai persistir ... e o que poderá fazê-lo desaparecer.
Novo no Analisa: Habitação 🏠
2011–2018: o país perdeu 257 mil residentes e concluiu 132 mil casas.
2019–2025: ganhou 1,09 milhões e concluiu 171 mil. São 6 pessoas a mais por cada casa nova.
O preço do m² quase duplicou desde 2019.
Todos os dados de habitação do Analisa numa só página 👇
analisa.pt/habitacao
Os gráficos oficiais da MSCI (European Residential Results Webinar, dados a dezembro 2025) mostram duas coisas diferentes e complementares.
O gráfico das barras (“Capital weight by country × sector, % of country total, 2025”) mede a composição das carteiras institucionais. Na Dinamarca e nos Países Baixos o residencial é a maior fatia. Em Portugal é residual... a maior parte do capital institucional está em escritórios, industrial e outros. Portugal pesa muito pouco no índice residencial europeu (gráficos de country weighting).
O terceiro gráfico (“What % Deals Are Done by Domestic Buyers”, transações ≥ €5m desde 2022) mostra quem está a comprar nas operações que acontecem. Em Portugal a percentagem de compradores domésticos é das mais baixas da Europa. Ou seja, o pouco capital institucional que existe no residencial português é maioritariamente estrangeiro.
Isto não retira razão ao argumento ... mas diria que reforça a precisão. O volume institucional em residencial em Portugal continua pequeno. Desse volume pequeno, a maior parte é estrangeiro. Em países onde o volume institucional em residencial é grande (Dinamarca, Países Baixos), o mercado não está colapsado.
Agora dados portugueses sobre o peso real (confirmado por fontes nacionais):
- Auditoria do Tribunal de Contas (2025, dados de 2023): a habitação representava apenas 6,6% dos ativos que os fundos destinavam a arrendamento. A esmagadora maioria era serviços e comércio (~69%). Mesmo dentro do que os fundos já têm em arrendamento, a habitação é residual.
-Estimativas a partir de dados da CMVM e APFIPP: a exposição residencial dos fundos corresponde a cerca de 0,1% a 0,2% do parque habitacional total (em número de fogos) e perto de 0,5% em valor. Em comparações internacionais, mesmo países com mais institucionalização ficam longe de “dominar” o stock.
- Colliers (H1 2026): os fundos concentraram 78% do volume de investimento imobiliário transacionado e o capital internacional foi 55%. Mas o setor Living foi apenas €88 milhões de um total de ~€1,4 mil milhões. Os fundos dominam volumes de transações de investimento (sobretudo não-residencial), não o stock residencial.
Os dados da MSCI e as fontes portuguesas apontam para o mesmo sítio. O peso institucional no residencial português é residual. Mesmo sendo maioritariamente estrangeiro, continua a ser pequeno. Em mercados onde a alocação institucional a residencial é muito mais elevada, não há colapso do mercado.
A narrativa dos “fundos gananciosos” (nacionais ou estrangeiros) como causa principal da crise não se sustenta nestes números. O problema estrutural continua a ser de oferta, licenciamento e regras - não do peso dos fundos.
Fontes: msci.com/research-and-insigh…
msci.com/downloads/web/msci-…
MSCI Pan-European Annual Residential Profile & Performance, December 2025 (webinar 29 April 2026); Tribunal de Contas, Auditoria aos benefícios fiscais direcionados aos organismos de investimento imobiliário (2025); dados CMVM/APFIPP; Colliers Investment in Portugal Q2 2026.
Replying to @EliteFinPT
Sabes de onde vêm esses dados do MSCI? Procurei nos relatórios deles e não encontrei.
Oferta mínima histórica conjugada com uma procura exponencial (máximos históricos também)
Minimos e máximos históricos dos dois lados da equação.
Mas que outra situação poderia acontecer?!
Dinamarca: 65% de habitação nas carteiras institucionais.
Portugal: 5%.
E mesmo assim, a narrativa dominante em portugal continua a ser que a culpa da crise é da “especulação dos fundos”.
O gráfico da MSCI não mostra “fundos a sugar o mercado”.... Mostra a percentagem de habitação dentro das carteiras imobiliárias dos investidores institucionais (fundos de pensões, seguros, fundos imobiliários, etc.). Na Dinamarca e nos Países Baixos o residencial é classe de ativos core. Em Portugal é residual ... os grandes fundos investem sobretudo em escritórios, retalho, logística e hotéis.
Se os “fundos gananciosos” fossem o problema, a Dinamarca já tinha colapsado e Portugal era um paraíso.
A escassez vem de outro lado: construção em mínimos históricos + procura em máximos + burocracia que bloqueia oferta durante anos. Os bodes expiatórios ideológicos não constroem casas.
Escrevi sobre isto com mais profundidade aqui:
elitefinanceira.substack.com…
Adam Patti (VistaShares) sobre a Berkshire Hathaway e o AI.
"They wrote one of the biggest financing checks of the AI buildout last quarter - about $10 billion - to support Google's efforts on data centers."
"Electricity is the bottleneck [for AI]. Whoever wins the model race, every data center needs electricity — and Berkshire sells it to them. Berkshire Hathaway Energy has around 9,000 MW of data center load contracted right now - either in service currently or being constructed."
$BRK.B
Dinamarca: 65% de habitação nas carteiras institucionais.
Portugal: 5%.
E mesmo assim, a narrativa dominante em portugal continua a ser que a culpa da crise é da “especulação dos fundos”.
O gráfico da MSCI não mostra “fundos a sugar o mercado”.... Mostra a percentagem de habitação dentro das carteiras imobiliárias dos investidores institucionais (fundos de pensões, seguros, fundos imobiliários, etc.). Na Dinamarca e nos Países Baixos o residencial é classe de ativos core. Em Portugal é residual ... os grandes fundos investem sobretudo em escritórios, retalho, logística e hotéis.
Se os “fundos gananciosos” fossem o problema, a Dinamarca já tinha colapsado e Portugal era um paraíso.
A escassez vem de outro lado: construção em mínimos históricos + procura em máximos + burocracia que bloqueia oferta durante anos. Os bodes expiatórios ideológicos não constroem casas.
Escrevi sobre isto com mais profundidade aqui:
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A Habitação em Portugal: Quem Quer Mesmo Resolver o Problema?
Em Portugal, a crise da habitação tornou-se um debate sobre quem culpar. Mas há uma pergunta mais importante: quem tem realmente incentivos para resolver o problema?
A oferta de casas está em mínimos de décadas, enquanto a procura acumulou vários choques. O resultado não é surpreendente: em 2025, os preços subiram 17,6%.
Neste artigo, analiso o que os dados nos dizem sobre a construção, a imigração, os fundos imobiliários e as políticas públicas. Mas vou além do diagnóstico: olho para o que funcionou em Auckland e Minneapolis, para a experiência portuguesa dos anos 90 e para os interesses económicos e políticos que ajudam a perpetuar a escassez.
A conclusão é clara: subsidiar a procura não resolve uma oferta bloqueada (mínimos históricos). E enquanto construir continuar a ser tão difícil, a habitação continuará inacessível para quem ainda não tem casa.
Termino com uma reflexão de investimento: se o imobiliário português teve uma década extraordinária, fará sentido assumir que os próximos dez anos serão iguais? E se quem tem um imóvel de investimento, sem dívida, pudesse vender sem imposto sobre as mais-valias e passar a receber 3–4% em obrigações?
Não é uma previsão de queda dos preços. É uma análise sobre incentivos, oferta e risk/reward - e sobre a possibilidade de o melhor já ter ficado para trás.
Novo artigo na Elite Financeira: a economia política da habitação em Portugal e a tese de investimento que emerge da crise.
elitefinanceira.substack.com…
A Habitação em Portugal: Quem Quer Mesmo Resolver o Problema?
Em Portugal, a crise da habitação tornou-se um debate sobre quem culpar. Mas há uma pergunta mais importante: quem tem realmente incentivos para resolver o problema?
A oferta de casas está em mínimos de décadas, enquanto a procura acumulou vários choques. O resultado não é surpreendente: em 2025, os preços subiram 17,6%.
Neste artigo, analiso o que os dados nos dizem sobre a construção, a imigração, os fundos imobiliários e as políticas públicas. Mas vou além do diagnóstico: olho para o que funcionou em Auckland e Minneapolis, para a experiência portuguesa dos anos 90 e para os interesses económicos e políticos que ajudam a perpetuar a escassez.
A conclusão é clara: subsidiar a procura não resolve uma oferta bloqueada (mínimos históricos). E enquanto construir continuar a ser tão difícil, a habitação continuará inacessível para quem ainda não tem casa.
Termino com uma reflexão de investimento: se o imobiliário português teve uma década extraordinária, fará sentido assumir que os próximos dez anos serão iguais? E se quem tem um imóvel de investimento, sem dívida, pudesse vender sem imposto sobre as mais-valias e passar a receber 3–4% em obrigações?
Não é uma previsão de queda dos preços. É uma análise sobre incentivos, oferta e risk/reward - e sobre a possibilidade de o melhor já ter ficado para trás.
Novo artigo na Elite Financeira: a economia política da habitação em Portugal e a tese de investimento que emerge da crise.
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"You've got to really fish where the fishes are."
Li Lu retelling Munger's fishing rule. The crowded water does not just lower your odds, the competition averages out your returns. The edge is in the markets, industries, and countries nobody is watching.
Source: "36th Annual Graham & Dodd Event with Li Lu '96, Founder and Chairman of Himalaya Capital," Columbia Business School, October 15, 2026.
Já agora, uma nota sobre impostos, porque o tema anda por aí. Aumentar o imposto sobre imóveis que não são usados para habitação, nas zonas de maior pressão urbanística, até pode fazer algum sentido. Mas só funciona em conjunto com a descida dos impostos sobre as transações (impostos, taxas e taxinhas) e, idealmente, com um desagravamento fiscal sobre os rendimentos do trabalho. A ideia é dar a quem tem casas paradas um incentivo para as vender ou pôr no arrendamento, e tirar ao imobiliário o papel de mealheiro. Subir só impostos não resolve grande coisa.
PS vai propor ao Governo a isenção de mais-valias na venda de casas até 300 mil euros sicnoticias.pt/economia/habi…
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Quando se fala de capital cycles, fala-se muito de procura, oferta e investimento. Mas há uma variável que merece tanta atenção como qualquer uma destas: os incentivos de quem decide onde e como alocar capital.
Qualquer indústria funciona por boom and bust. Na fase de expansão acham sempre que vai ser higher for longer e que a procura justifica qualquer aumento de capacidade. Acaba (quase) sempre em overcapacity.
Os três slides da @crudechronicle ilustram bem o contraste entre o setor petrolífero e as Big Tech.
Durante o boom do petróleo, produzir mais e aumentar reservas eram objectivos centrais. O pressuposto era quase sempre o mesmo: a procura continuaria forte e os preços elevados justificariam mais capacidade. O resultado foi uma indústria que investiu capital em excesso, muitas vezes com retornos decepcionantes, e que acabou por ter de repensar as suas prioridades.
Depois do ciclo de destruição de capital, os incentivos começaram a mudar. Nas E&Ps, o peso atribuído ao crescimento da produção nos planos de remuneração caiu drasticamente, enquanto métricas como ROIC, ROCE e ROE ganharam relevância. A mensagem passou a ser outra: já não bastava produzir mais... era preciso demonstrar que o capital investido criava valor.
Nas Big Tech, a estrutura de incentivos continua muito orientada para o crescimento das receitas e do operating income. Durante muito tempo, num setor relativamente pouco intensivo em capital, esta abordagem fazia sentido. Mas a corrida à IA está a alterar essa realidade. O capex dispara, a estrutura de capital muda e a rentabilidade incremental de cada dólar investido torna-se muito mais importante.
O risco não é investir em IA... diria que é mais investir sem exigir um retorno adequado sobre o capital. Quando a remuneração dos gestores privilegia o crescimento, é natural que o crescimento se torne a prioridade... mesmo quando o retorno económico começa a deteriorar-se. E, em qualquer indústria, a convicção de que a procura futura justificará toda a capacidade adicional é precisamente o que alimenta os capital cycles e a sobrecapacidade.
Não significa que a história do petróleo se vá repetir nas tecnológicas com 100% certeza... mas diria que as mega caps estão a cometer os erros da indústria de oil no passado... Os setores são diferentes e os resultados também poderão ser. Mas os incentivos são uma boa forma de perceber para onde está a ser empurrado o capital antes de os resultados financeiros tornarem os erros evidentes.
É também uma das razões pelas quais gosto tanto da $OXY , uma das minhas maiores posições. Na minha leitura, a empresa tem hoje uma orientação muito mais centrada na eficiência do capital: privilegiar ativos competitivos, alienar os menos atrativos, controlar o crescimento da produção, reduzir dívida e devolver capital aos acionistas através de buybacks e dividendos. A influência da Berkshire reforçou, a meu ver, esta disciplina.
No longo prazo, não basta ter bons ativos ou operar num setor atractivo. Importa também saber se os incentivos de quem gere a empresa estão alinhados com a criação de valor por acção.
Crescer é fácil de medir....Criar valor é bem mais difícil.
Slides: @crudechronicle
Disclosure: tenho uma posição em OXY. Este texto reflete a minha opinião e obviamente não constitui uma recomendação de investimento.
Quando se fala de capital cycles, fala-se muito de procura, oferta e investimento. Mas há uma variável que merece tanta atenção como qualquer uma destas: os incentivos de quem decide onde e como alocar capital.
Qualquer indústria funciona por boom and bust. Na fase de expansão acham sempre que vai ser higher for longer e que a procura justifica qualquer aumento de capacidade. Acaba (quase) sempre em overcapacity.
Os três slides da @crudechronicle ilustram bem o contraste entre o setor petrolífero e as Big Tech.
Durante o boom do petróleo, produzir mais e aumentar reservas eram objectivos centrais. O pressuposto era quase sempre o mesmo: a procura continuaria forte e os preços elevados justificariam mais capacidade. O resultado foi uma indústria que investiu capital em excesso, muitas vezes com retornos decepcionantes, e que acabou por ter de repensar as suas prioridades.
Depois do ciclo de destruição de capital, os incentivos começaram a mudar. Nas E&Ps, o peso atribuído ao crescimento da produção nos planos de remuneração caiu drasticamente, enquanto métricas como ROIC, ROCE e ROE ganharam relevância. A mensagem passou a ser outra: já não bastava produzir mais... era preciso demonstrar que o capital investido criava valor.
Nas Big Tech, a estrutura de incentivos continua muito orientada para o crescimento das receitas e do operating income. Durante muito tempo, num setor relativamente pouco intensivo em capital, esta abordagem fazia sentido. Mas a corrida à IA está a alterar essa realidade. O capex dispara, a estrutura de capital muda e a rentabilidade incremental de cada dólar investido torna-se muito mais importante.
O risco não é investir em IA... diria que é mais investir sem exigir um retorno adequado sobre o capital. Quando a remuneração dos gestores privilegia o crescimento, é natural que o crescimento se torne a prioridade... mesmo quando o retorno económico começa a deteriorar-se. E, em qualquer indústria, a convicção de que a procura futura justificará toda a capacidade adicional é precisamente o que alimenta os capital cycles e a sobrecapacidade.
Não significa que a história do petróleo se vá repetir nas tecnológicas com 100% certeza... mas diria que as mega caps estão a cometer os erros da indústria de oil no passado... Os setores são diferentes e os resultados também poderão ser. Mas os incentivos são uma boa forma de perceber para onde está a ser empurrado o capital antes de os resultados financeiros tornarem os erros evidentes.
É também uma das razões pelas quais gosto tanto da $OXY , uma das minhas maiores posições. Na minha leitura, a empresa tem hoje uma orientação muito mais centrada na eficiência do capital: privilegiar ativos competitivos, alienar os menos atrativos, controlar o crescimento da produção, reduzir dívida e devolver capital aos acionistas através de buybacks e dividendos. A influência da Berkshire reforçou, a meu ver, esta disciplina.
No longo prazo, não basta ter bons ativos ou operar num setor atractivo. Importa também saber se os incentivos de quem gere a empresa estão alinhados com a criação de valor por acção.
Crescer é fácil de medir....Criar valor é bem mais difícil.
Slides: @crudechronicle
Disclosure: tenho uma posição em OXY. Este texto reflete a minha opinião e obviamente não constitui uma recomendação de investimento.
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O que vi em 2021 no setor de memória/storage - consolidação profunda em 3 players super racionais - a acontecer agora no setor de offshore drilling services...
A aprovação da fusão entre a $VAL e a $RIG é uma boa oportunidade para explicar melhor o racional que me levou a investir nestas empresas. E há um paralelismo com a Micron que me interessa particularmente.
Quando investi na $MU , em 2021, não estava simplesmente a comprar uma empresa de memória barata. Estava a apostar numa mudança estrutural da indústria... Durante décadas, a memória foi um negócio péssimo em termos de retorno sobre o capital: excesso de capacidade, demasiados produtores e guerras de preços que destruíam valor. A consolidação em três grandes players, Micron, Samsung e SK Hynix, criou condições para uma gestão mais racional da oferta. O negócio continuava cíclico e a memória continuava a ser uma commodity, mas a estrutura competitiva tinha mudado. Era isso que tornava a tese interessante.
Vejo uma lógica semelhante no deepwater drilling. A indústria passou anos a sofrer com excesso de capacidade, plataformas a mais e concorrência que levava os operadores a aceitar contratos pouco atrativos só para manterem os activos ocupados. O problema não era apenas o preço do petróleo ou a falta de procura num determinado momento. Era também a estrutura da própria indústria, que incentivava decisões irracionais e tornava difícil obter retornos decentes mesmo quando o mercado recuperava.
A consolidação entre a Transocean e a Valaris pode alterar parte dessa dinâmica. Juntas, as empresas terão uma frota de 73 plataformas e uma posição muito mais relevante num mercado em que a oferta de equipamentos de elevada especificação é limitada. Se, como espero, a consolidação deixar cerca de 80% da oferta relevante concentrada em três grandes operadores, a indústria fica numa posição muito diferente daquela que conhecemos durante a última década. Não porque possam combinar preços, mas porque há menos capacidade disponível, menos concorrentes a qualquer custo e maior potencial para uma alocação de capital disciplinada.
Há, no entanto, uma diferença importante em relação à Micron. Na memória, a tese dependia de os três fabricantes manterem disciplina na produção. Quando comecei a acreditar que essa racionalidade se estava a perder, a tese deteriorou-se, mesmo com a procura de AI a crescer. No deepwater, quero ver se a consolidação se traduz efectivamente em maior utilização da frota, melhores dayrates, menos capacidade a regressar ao mercado e retornos que justifiquem o capital investido. Ter menos concorrentes é uma condição favorável, não uma garantia de bons resultados.
É precisamente por isso que olho para estes activos com um horizonte potencialmente longo. Não estou apenas a apostar na próxima subida do petróleo ou no próximo ciclo de contratos. Estou a apostar que uma indústria que destruiu capital durante anos pode finalmente tornar-se mais racional. E, num sector em que uma plataforma nova exige muito capital e vários anos até entrar em operação, a capacidade existente pode tornar-se bastante mais valiosa quando a oferta deixa de crescer de forma indiscriminada.
A Micron ensinou-me que uma mudança na estrutura competitiva pode valer muito mais do que parece nos números de um determinado ano. Ensinou-me também que não devo confundir uma boa estrutura de mercado com uma tese permanente. Na $RIG e na $VAL, o que me interessa agora é perceber se esta consolidação marca realmente o início de uma nova disciplina de capital. Se isso acontecer, os economics futuros podem ser muito diferentes dos economics históricos. É essa possibilidade que estou a tentar avaliar, não apenas o ciclo.
A Berkshire está a comprar habitação americana quando quase ninguém quer tocar no setor. À primeira vista, parece uma bet contra o ciclo. Mas, depois de estudar a Lennar, acho que a tese pode ser bem mais interessante: um défice estrutural de casas, construtores que passaram a funcionar como fábricas e um modelo de negócio muito menos intensivo em capital do que antes de 2008.
O mercado continua a olhar para estas empresas como negócios imobiliários cíclicos, penalizados pelas taxas de juro e pelas margens deprimidas. Mas e se estiver a subestimar a transformação do sector? Analisei os números, o modelo de negócio, a posição da Berkshire e o que a Lennar poderá valer quando os lucros normalizarem. Também fiz as contas ao que pode correr mal.
Não é uma tese sem riscos... Mas a diferença entre comprar uma empresa barata e comprar um negócio estruturalmente melhor do que o mercado pensa está precisamente nos detalhes.
Novo artigo na Elite Financeira: a aposta da Berkshire na habitação americana e porque estou a olhar com atenção para a Lennar.
$BRK.B $LEN $DHI
elitefinanceira.substack.com…
Enquanto o mercado continua absorvido por previsões macro de reduzida fiabilidade e debates sobre temas AI, muitas vezes sem uma compreensão real dos economics subjacentes, está a acontecer algo potencialmente muito mais relevante: a consolidação de uma indústria num oligopólio que concentra ativos críticos, praticamente impossíveis de substituir no curto prazo e com importância crescente para a economia global.
Uma alteração estrutural na oferta, com implicações diretas para o poder negocial, a utilização dos ativos e os retornos sobre o capital investido. Mas isso exige olhar para além do gráfico da ação e perceber como os economics do negócio podem estar a mudar. E talvez seja precisamente por isso que tão poucos parecem prestar atenção.
O que vi em 2021 no setor de memória/storage - consolidação profunda em 3 players super racionais - a acontecer agora no setor de offshore drilling services...
A aprovação da fusão entre a $VAL e a $RIG é uma boa oportunidade para explicar melhor o racional que me levou a investir nestas empresas. E há um paralelismo com a Micron que me interessa particularmente.
Quando investi na $MU , em 2021, não estava simplesmente a comprar uma empresa de memória barata. Estava a apostar numa mudança estrutural da indústria... Durante décadas, a memória foi um negócio péssimo em termos de retorno sobre o capital: excesso de capacidade, demasiados produtores e guerras de preços que destruíam valor. A consolidação em três grandes players, Micron, Samsung e SK Hynix, criou condições para uma gestão mais racional da oferta. O negócio continuava cíclico e a memória continuava a ser uma commodity, mas a estrutura competitiva tinha mudado. Era isso que tornava a tese interessante.
Vejo uma lógica semelhante no deepwater drilling. A indústria passou anos a sofrer com excesso de capacidade, plataformas a mais e concorrência que levava os operadores a aceitar contratos pouco atrativos só para manterem os activos ocupados. O problema não era apenas o preço do petróleo ou a falta de procura num determinado momento. Era também a estrutura da própria indústria, que incentivava decisões irracionais e tornava difícil obter retornos decentes mesmo quando o mercado recuperava.
A consolidação entre a Transocean e a Valaris pode alterar parte dessa dinâmica. Juntas, as empresas terão uma frota de 73 plataformas e uma posição muito mais relevante num mercado em que a oferta de equipamentos de elevada especificação é limitada. Se, como espero, a consolidação deixar cerca de 80% da oferta relevante concentrada em três grandes operadores, a indústria fica numa posição muito diferente daquela que conhecemos durante a última década. Não porque possam combinar preços, mas porque há menos capacidade disponível, menos concorrentes a qualquer custo e maior potencial para uma alocação de capital disciplinada.
Há, no entanto, uma diferença importante em relação à Micron. Na memória, a tese dependia de os três fabricantes manterem disciplina na produção. Quando comecei a acreditar que essa racionalidade se estava a perder, a tese deteriorou-se, mesmo com a procura de AI a crescer. No deepwater, quero ver se a consolidação se traduz efectivamente em maior utilização da frota, melhores dayrates, menos capacidade a regressar ao mercado e retornos que justifiquem o capital investido. Ter menos concorrentes é uma condição favorável, não uma garantia de bons resultados.
É precisamente por isso que olho para estes activos com um horizonte potencialmente longo. Não estou apenas a apostar na próxima subida do petróleo ou no próximo ciclo de contratos. Estou a apostar que uma indústria que destruiu capital durante anos pode finalmente tornar-se mais racional. E, num sector em que uma plataforma nova exige muito capital e vários anos até entrar em operação, a capacidade existente pode tornar-se bastante mais valiosa quando a oferta deixa de crescer de forma indiscriminada.
A Micron ensinou-me que uma mudança na estrutura competitiva pode valer muito mais do que parece nos números de um determinado ano. Ensinou-me também que não devo confundir uma boa estrutura de mercado com uma tese permanente. Na $RIG e na $VAL, o que me interessa agora é perceber se esta consolidação marca realmente o início de uma nova disciplina de capital. Se isso acontecer, os economics futuros podem ser muito diferentes dos economics históricos. É essa possibilidade que estou a tentar avaliar, não apenas o ciclo.



























